A arte de se tornar desnecessário

É muito fácil para nós, pecadores, esquecermos para o quê fomos chamados e ficarmos uma vida inteira, querendo ou não, alimentando uma dependência que não é bíblica.
Por José Eduardo Alves Carvalho

Tenho uma vida dupla. Confesso. Durante o dia sou um funcionário público, desenvolvendo software para o Governo Federal. De noite, porém, me transformo em teólogo e passo a ajudar na Igreja de Jesus.

Claro que é uma brincadeira. Não dá para dividir a vida em dois turnos. Clark Kent pode até ter conseguido durante um tempo, mas chegou uma hora em que a Lois percebeu. Se ele, que era o super-homem, não conseguiu, imagina eu? Na verdade, o que acontece é que durante o dia lidero um grupo de desenvolvedores como teólogo, e muitas vezes me vi dirigindo louvor como analista de sistemas.

Mas por que essa conversa toda?

Porque é muito legal poder perceber a vida corporativa com a ótica teológica e, ao mesmo tempo, perceber a igreja pela ótica corporativa.

E percebo algumas coisas interessantes nos dois mundos.

Uma dessas percepções é sobre nossa auto-destruição. Não, você não leu errado. Eu penso que todos somos fadados, ou deveríamos ser, a nos tornar desnecessários.

Um advogado deveria lutar pela justiça, certo? Ora, se a sociedade se tornasse tal, em que as pessoas se respeitassem e resolvessem seus conflitos, o advogado seria desnecessário. Um médico deveria lutar pela saúde, pela cura. Uma vez que chegássemos a um avanço social e tecnológico correto, as doenças cessariam e o médico seria peça de museu. Para não dizer que não falo de minha profissão: Um desenvolvedor de software deveria criar sistemas com qualidade, entendendo bem os requisitos do cliente, de forma a deixar as coisas rodando por si só, sem necessidade de intervenção.

Imagino que você esteja pensando que eu estou simplificando as coisas ao extremo. Eu sei disso. Claro que esse pensamento só tem sentido em um mundo perfeito. E tal mundo não irá surgir pela atuação humana, mas sim porque o Senhor da história irá retornar, fazendo surgir novos céu e terra.

Entretanto, em alguma medida, deveríamos ter esse alvo.

O problema é que nos tornamos, de alguma maneira, dependentes das situações que deveríamos corrigir. Um advogado precisa que haja conflitos, senão não tem como sobreviver. Um médico, para tocar sua vida, criar seus filhos, precisa de doentes, de acidentes. E um analista de sistemas precisa que o sistema trave de vez em quando para que a vida continue.

Saindo da “esfera corporativa”, como encarar isso quando pensamos na liderança de uma igreja?

Como líderes, fomos chamados para desenvolver as pessoas de nossa comunidade, capacitando-as, dentro daquilo que o Senhor permite, a viverem por si só. Não no sentido de isolamento, mas no sentido de auto suficiência para entenderem a vida à luz da Palavra, e serem sal e luz no dia a dia.

A pergunta para cada um daqueles que lideram a Igreja é: Estamos conduzindo nosso ministério para nos tornar desnecessários? Estamos realmente lutando para apresentar todo homem perfeito ao Senhor (Col 1:28)?

Ou estamos, de alguma forma, alimentando um sistema que seja dependente de nós, e, em vez de gerar adultos, estamos mantendo crianças?
Quando tudo tem que passar pelas mãos do líder, temos um problema, seja na Igreja, seja nas empresas. Qualquer livro mais atualizado sobre o tema “liderança” ensina isso. O verdadeiro líder, aquele que segue o exemplo de Jesus, deve ser o primeiro a servir. E, tanto na Igreja quanto na corporação, nosso maior serviço é estimular o desenvolvimento daqueles que lideramos. Um dos maiores impulsionadores disso acontece quando entregamos projetos aos liderados, explicitando não somente a responsabilidade, mas, também, dando a autoridade necessária. Não fazer isso é manter o status quo do “Eu mando e você obedece”.

Pode ser pior. O líder quer ou precisa fazer tudo. Prega, dirige o louvor, batiza, aconselha. Em algumas situações – pequenas comunidades nascentes – isso pode ser necessário. Mas é algo que deve ser modificado o mais cedo possível. Primeiro, porque os líderes são seres humanos, com limitações físicas e mentais. Por isso, estão sujeitos ao estresse e à estafa. Segundo, porque fazendo tudo o líder está exposto ao sentimento de grandeza: “Só eu faço isso direito”. Nada mais perigoso. O resultado desse tipo de condução é conhecida de todos os que já tem algum tempo de caminhada no Reino.

Enfim, a pergunta por nossos objetivos de liderança deve estar presente em nossas mentes todo o tempo. É muito fácil para nós, pecadores, esquecermos para o quê fomos chamados e ficarmos uma vida inteira, querendo ou não, alimentando uma dependência que não é bíblica.

Assim, como disse em relação aos advogados e médicos, sei que não vamos ter isso plenamente do lado de cá da eternidade.

Mas, não deveria ser o alvo?
Postar um comentário