Quando ideias mortas ressuscitam

Julho de 2012. Um grupo de sete sobreviventes, cansados e mutilados esperam ajoelhados enquanto um maníaco brinca de "uni-duni-tê", tira um deles da fila e o espanca até a morte.

Eis o resumo da centésima edição do quadrinho "The Walking Dead", que vendeu 380 mil cópias logo em seu lançamento nos Estados Unidos (se você acompanha a série de TV, não fique bravo comigo, pelo andar das coisas a cena só aparecerá lá pela 14ª temporada, e há diferenças entre a história na TV e nos quadrinhos).
Por que estou contando isso? Há não muito tempo, revistas em quadrinhos foram declaradas como um mercado falido. Empresas como Marvel (dona do Homem Aranha e X-Men, entre outros) e DC (Super-homem, Batman e o importantíssimo Aquaman) viam-se com os dias contados. Ou pelo menos era isso que os analistas diziam nos idos de 2006.
Foto: reprodução

Ao mesmo tempo, um movimento paralelo já havia iniciado. Alguns personagens mais famosos começaram a virar filme, fazendo pais ansiosos e jovens saudosistas arrastarem seus filhos e sobrinhos para ver, afinal, o que o tal do Homem Aranha ou do Wolverine tinham de tão legal assim. Como um bom zumbi, o mercado dos quadrinhos começava a ressuscitar. Em 2009, a Walt Disney marcou a virada comprando a Marvel por quatro bilhões de dólares. Parece muito? Em 2012, o filme dos Vingadores sozinho rendeu 1,5 bilhão de dólares em bilheteria.
Voltando ao gênero de zumbis, foi um longo caminho entre "A Noite dos Mortos Vivos", de 1968, até World War Z ter Brad Pitt como herói com estreia em 2013. Nesse meio tempo há inúmeras declarações de horror sobre o mau gosto e o fim desse tipo de filme e renascimentos, como a série de sucesso que no Brasil passa no canal Fox.
Por que estou falando tudo isso? Porque tal qual como alguns heróis do The Walking Dead, os quadrinhos estavam mortos, enterrados.
Volta e meia ouvimos previsões de analistas que tentam prever o futuro basicamente sobre tudo. Dessa forma, ouvimos como as linhas fixas acabarão e só teremos celulares, como ninguém mais iria ao cinema, como a economia vai subir, cair, andar de lado ou dar um mergulho básico. Conforme o ano novo se aproxima, não faltarão previsões sobre os astros, dietas, amores e qualquer outra coisa que se possa imaginar.
O fato é que somos notoriamente ruins em prever o futuro. Os rumos de uma empresa, setor, quem dirá de uma economia, são resultado de fatores extremamente complexos. Algumas indústrias aparecem e morrem rapidamente, outras se recusam a morrer apesar de toda a torcida contra.
Uma consequência é que não somos ruins somente em prever o futuro. Somos ruins também em analisar nossa situação presente. Quando estamos em uma "empresa em queda", em uma "situação ruim" em uma "carreira sem saída" e outras coisas que gostamos de dizer a nós mesmos e na mesa de bar.
Até que alguém inventa algo novo. O mercado de quadrinhos poderia ser a pior coisa do mundo, mas abriu espaço para um autor com coragem de fazer você gostar de um personagem, e assistir a ele morrer de forma trágica e sem sentido a qualquer momento.
Tendência não é destino. Boas ideias são recompensadas. Antes que a onda de previsões para 2013 comece, é bom se lembrar disso. Nunca é tarde para virar o jogo.

Por Fábio Zugman
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