Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas.Parte 1

Acima o Rabino Harold Kushner

Ricardo Guerra, no Estadão
O Rabino Harold Kushner é uma das autoridades religiosas mais respeitadas do mundo. Seu best-seller, Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas, já vendeu mais de 4 milhões de cópias. O livro foi escrito após a morte trágica de seu filho, que aos três anos de idade foi diagnosticado com uma doença degenerativa raríssima. A obra trata de assuntos referentes à vida, ao sofrimento humano e à onipotência de Deus. Seus livros têm sido uma fonte de inspiração para milhares de pessoas em todo o mundo. Veja aqui a entrevista que me foi concedida esta semana na qual Kushner fala sobre diversos assuntos, entre eles, a tragédia que atingiu Santa Maria.
Pergunta Blog: O seu best-seller foi uma fonte de inspiração e de consolo para milhões de pessoas que passaram por momentos difíceis em todo o mundo. O que motivou você a escrever este livro com tanta sabedoria e discernimento? Será que foi a experiência trágica que você enfrentou com o seu filho?
Harold Kushner: Foi sim. Sem dúvida.
Pergunta Blog: Você gostaria de comentar sobre essa experiência?
Harold Kushner: Vou contar-lhe toda a história. Eu cresci sempre acreditando em um Deus Todo Poderoso e onipotente. Porém, se não pudéssemos entender porque Deus permitiu o Holocausto e o nascimento de Hitler, ou que pessoas inocentes morressem sofrendo de dores agonizantes por meio de um câncer, então seria a nossa interpretação a respeito da função Dele que seria limitada, pois não foi Deus que permitiu tais coisas. Não podia ser Deus. Ele não faz isso, não escolhe tão arbitrariamente entre uma pessoa e outra. A minha formação como rabino no seminário, foi muito influenciada por essa linha de raciocínio. Quando descobri que meu filho inocente estava condenado a uma vida de sofrimento, ou eu tinha que parar de acreditar em Deus e deixar de ser um rabino, ou eu tinha que passar a entender o papel de Deus, a função dele no mundo de uma forma diferente. E foi aí que vi que Deus estava do meu lado, que Deus não queria que estas coisas acontecessem comigo. O que aconteceu com o meu filho foi uma fatalidade, foi simplesmente uma aberração da genética. Mas uma vez que isso aconteceu e nós soubemos o diagnóstico do nosso filho, minha esposa e eu não sabíamos se íamos ser capazes de lidar com tal desafio e, no entanto, conseguimos. De alguma forma encontramos a força, a sabedoria e a coragem para fazer exatamente o que tinha de ser feito: fomos capazes de criá-lo e de fazer o melhor possível perante uma situação trágica. Ele encontrou os recursos e as forças para lidar com o desafio que estava diante dele. E foi essa experiência que mudou completamente minha visão – eu não estava mais com raiva de Deus, e poderia novamente voltar a contar com Ele e pedir sua ajuda em momentos difíceis. Eu poderia continuar com a minha fé Nele para ajudar outras pessoas com os seus problemas, e isso mudou tudo.
Pergunta Blog: Em seu livro, você argumenta contra a crença de que Deus é uma força onipotente. Você poderia apresentar aos leitores uma introdução a este tema?
Harold Kushner: Algumas pessoas encontram muita dificuldade em aceitar ou lidar com a ideia de que existe aleatoriedade no universo. Elas procuram razões e justificações para tudo o que acontece. No entanto, coisas boas e ruins podem acontecer sem qualquer motivo aparente. Quando um motorista bêbado dirige seu carro sobre a linha central de uma estrada, colidindo com um Chevrolet verde e matando os passageiros daquele carro, em vez do Ford vermelho 50 metros mais distante, não há qualquer razão específica para a perda de uma vida ao invés de outra. Esses eventos não refletem as escolhas de Deus. Deus não escolhe de que forma acabar, tão arbitrariamente, com uma vida em vez de outra. Porém, diante de tal cenário, muitos dos que acabam de sofrer uma tragédia sentem raiva de Deus, porque Lhe atribuem a culpa do acontecido. Ficam convencidos de que Ele é cruel, ou de que são pecadores e responsáveis pelo que aconteceu, ao invés de aceitarem a aleatoriedade que existe no universo. O que eu proponho nos meus livros é que encaremos a posição de Deus em nosso mundo de uma maneira completamente diferente.
Pergunta Blog: Você poderia explicar o assunto com maior profundidade?
Harold Kushner: O psicanalista Carl Jung tem uma teoria de que as crianças sempre procuram acreditar que seus pais são todo-poderosos, isto é, que os pais podem consertar qualquer coisa que estiver errada ou com algum defeito e que eles podem protegê-los de qualquer coisa. E elas ficam completamente desiludidas quando descobrem que eles não possuem a capacidade de protegê-las em todas as circunstâncias. Assim como as crianças, as pessoas direcionam essa crença de um protetor todo poderoso para seus líderes religiosos e políticos: como o rei, o presidente ou o papa. Desse modo, quem quer que seja essa figura, se torna o novo onipotente, o sábio, que irá fazer tudo o que é certo. Quando descobrimos que essa figura também é apenas um ser humano, projetamos esta crença em Deus. Desta forma, nenhum ser humano pode ser todo-poderoso, mas Deus pode! Deus diz: “Espere um minuto! Nunca foi minha ideia ser o Todo-Poderoso. Essa é a sua maneira de evitar suas responsabilidades, depositando-as sobre de mim”. Deus diz: “Meu poder não é controlar o que aconteceu. Meu poder está direcionado para que você tenha as forças necessárias para responder ao que aconteceu. Meu poder é intervir após o fato, após o acontecimento. E ajudá-lo a lidar com o que aconteceu”. Na minha opinião, é aí que está a força, o poder que Deus tem, não para controlar os fatos, mas para que possamos lidar da melhor forma com o que aconteceu.
Pergunta Blog: Em diversas ocasiões, usei alguma da sabedoria exposta em seus livros para tentar consolar os inconsoláveis. No entanto, muitas vezes as pessoas que possuem forte fé nas doutrinas de suas religiões se sentem ofendidas quando alguém questiona a onipotência de Deus. O que você tem a dizer sobre isso?
Harold Kushner: Eu entendo o problema e sei que isso às vezes acontece. Se uma pessoa se sente satisfeita com a compreensão tradicional sobre a função de Deus no universo, eu não tenho intenção nenhuma de mudar a crença dela. Eu respeito a posição de cada um e incentivo as pessoas a fazerem ou a acreditarem naquilo que seja mais saudável para elas.
Pergunta Blog: Como pode um devoto judeu, cristão ou muçulmano conciliar sua fé com o conselho que você dá, ou seja, que questiona a onipotência de Deus?
Sim, é necessário certo esforço. Não é uma tarefa completamente fácil. Aquilo em que eu acredito não necessariamente funciona para todos. E eu serei o primeiro a admitir que, se o sistema tradicional funciona para você, então não é necessário buscar outra alternativa. Eu não quero roubar as pessoas das alternativas de pensamento que funcionam para elas. No entanto, para muitos dos que estão confusos e dizem: “Eu quero e gostaria de acreditar em um Deus que escute as minhas orações, mas eu rezo e minhas orações não são respondidas”, eu quero oferecer uma alternativa que torne desnecessário eles terem que parar de acreditar em Deus, ou terem que brigar com Deus. Vou tentar explicar melhor o meu ponto de vista: eu acho que muitas pessoas que são religiosas têm problemas com a oração, porque tendem a confundir a figura de Deus com a do Papai Noel. Nossa compreensão de Deus, ou da função que ele tem, é a seguinte: fazemos uma lista de tudo o que queremos e achamos que merecemos e imploramos para que Deus nos dê tudo o que achamos que merecemos ou que nos faz felizes. No entanto, tais pedidos só poderiam ser correspondidos se Deus fosse Papai Noel. Deus não o é. O que devemos dizer a Deus é: “Eu estou enfrentando uma situação muito difícil. Eu acho que posso lidar com isso se eu tiver certeza de que você está do meu lado, que você não está fazendo isso comigo, mas que você está me apoiando, trabalhando contra o crime, trabalhando contra a injustiça que potencialmente pode vir a me afligir. Se eu souber que você está do meu lado, aí sim, eu posso encontrar forças para continuar no meu caminho”. É desta forma que eu gostaria de encorajar as pessoas a conciliar essa ideia com a relação tradicional das orações.
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