Quando coisas ruins acontecem às pessoas boas. Parte 2


Acima o Rabino Harold Kushner


Pergunta Blog: Há uma justificação teológica dentro dos textos sagrados para apoiar suas posições?
Harold Kushner: Sim, existe. De onde tiramos a ideia de que o poder é a suprema virtude religiosa? Talvez de um mundo onde os imperadores tinham poder sobre a vida e a morte, e tínhamos que acreditar em um Deus que fosse pelo menos tão poderoso quanto o governante humano, ou até mais. Mas no mundo de hoje nós não temos esse problema. Há algo de não-religioso em adorar o poder indiscriminado, em dizer que Deus é grande, porque Ele é tão poderoso. Eu me sinto muito mais confortável acreditando que Deus é grande, porque ele é completamente compassivo e totalmente disponível para ajudar as pessoas.
Pergunta Blog: Mas há alguma justificativa teológica na Bíblia? Será que alguém precisa ter uma interpretação diferente da Bíblia para encontrar apoio ou acreditar na sua posição?
Harold Kushner: Sim, existe uma justificativa na Bíblia. Se há um capítulo de todo o livro que todo o mundo sabe de cor, é o salmo 23: “O Senhor é meu pastor”. Eu não sei se o verso tem a mesma importância na liturgia na América Latina como na liturgia norte-americana, mas é o salmo que ditamos em todos os funerais e em todos os enterros. No salmo 23, o verso mais importante é “Mesmo quando eu andar pelo vale da sombra da morte, não temerei perigo algum, pois Tu estás comigo”. Para o autor deste salmo, o que é reconfortante sobre a função de Deus não é que Ele o tenha levado a passar pelo vale da sombra da morte, não é que Deus tenha atingido alguém que Ele ama, não é que Deus o tenha afligido com uma doença potencialmente mortal, e sim que ele terá o apoio de Deus quando for confrontado com situações difíceis, porque Deus estará com ele: “Tu estás comigo”. Se você ler o salmo 23 com atenção, quando tudo está indo bem para a pessoa que escreveu o salmo, ela se refere a Deus como “Ele”. Somente quando algo terrível lhe acontece é que ela não diz “Ele,” mas “Tu estás comigo,” o “Ele” passa para “Tu”. A religião, ou a crença em Deus, torna-se real quando você tem uma tarefa intransponível pela sua frente e Deus concede a capacidade ou a força para enfrentá-la. Como o exemplo acima demonstra, a teologia é um jogo de palavras, podendo por isso ser considerada um grande desafio intelectual.
Pergunta Blog: Você acha que a sua perspectiva em relação à onipotência de Deus é mais prevalecente dentro do judaísmo, ou acha que também há um grande número de padres católicos, clérigos cristãos ou imãs que compartilham a sua visão?
Harold Kushner: Eu ainda não convenci todos, mas tais ideias não estão somente limitadas ao judaísmo. Já encontrei diversas pessoas no clero católico e protestante que se encontram abertas a essa interpretação. Em relação aos muçulmanos, não muitos. Eu acho que os muçulmanos seriam resistentes a aceitar tal visão. Mas quando eu escrevi o livro, em 1981, a ideia de que Deus estava do nosso lado e não do lado da doença atingiu muitos como herética e louca. Ninguém nunca tinha ouvido falar dela! Agora as pessoas estão se tornando mais abertas para conceber a onipotência de Deus de forma diferente. Há um reconhecimento maior da minha interpretação, e é uma opção viável para aquelas pessoas que têm fé em Deus. Há diversas escolas de pensamento que exploram a ideia de um Deus com poderes limitados. As pessoas podem encontrar tal conceito em livros bíblicos e em escritos medievais. Afinal, é muito mais fácil ter uma admiração saudável por Deus do que relutantemente baixar a cabeça a um Deus que é arbitrariamente cruel.
Pergunta Blog: Sócrates sabiamente disse que aqueles que querem o menor número de coisas estão mais próximos dos deuses. Parece que, como sociedade, nós estamos cada vez mais longe deste conceito. No entanto, os níveis de depressão e infelicidade são os mais altos em alguns dos países mais ricos do mundo. Qual é a sua explicação para tal fenômeno?
Harold Kushner: Deixa eu te dizer uma coisa, essa pergunta me intriga da mesma maneira que provavelmente intriga você. Às vezes eu acho que a culpa é da publicidade que atormenta as pessoas com imagens de diversos bens materiais que não possuímos. O objetivo é o de convencer sutilmente o ser humano de que ele seria mais feliz se tivesse isso ou aquilo. Havia um tempo em que as pessoas eram felizes com um décimo do que uma pessoa em média tem hoje em dia. Assim sendo, eu acho que as expectativas aumentaram e, em consequência disso, eu acho que muitas pessoas estão infelizes consigo mesmas e com o tipo de pessoa que são. Na verdade, elas não têm noção do que verdadeiramente está lhes faltando. Meu sermão durante o Yom Kippur, no ano passado, dizia algo sobre o fato de termos a tendência de invejar todas essas pessoas ricas. Muitas vezes, temos conhecimento dos problemas que muitas famílias famosas e de alto poder aquisitivo têm, como por exemplo, seus filhos que são presos por uso de drogas, seus múltiplos divórcios e suas cirurgias plásticas sucessivas. No entanto, nunca paramos para nos perguntar, porque estamos invejando essas famílias ou pessoas. Na verdade, talvez sejam eles que estejam nos invejando. Portanto, é muito possível que haja milionários que dizem: “Talvez eu pudesse ser mais feliz com um décimo do que eu estou ganhando, se pudesse ter a família e o casamento que eu vejo outras pessoas tendo”. Assim sendo, nós não damos valor ao que temos. As pessoas seriam muito mais felizes se pudessem focalizar naquilo que elas possuem e terem gratidão por aquilo que têm. E deveriam se sentir abençoadas por isso e satisfeitas com o mundo em que vivem. Vale a pena discutir o assunto um pouco mais a fundo. A pessoa mais pobre na minha comunidade, por exemplo, vive melhor do que o imperador da Rússia vivia, pois ela tem calefação e canalização, tem todos os tipos de dispositivos elétricos para cozinhar seus alimentos, automóveis e entretenimento que o imperador naquela época sequer sonhava ter. Nossas vidas realmente teriam muito a nos oferecer, se tivéssemos a habilidade de focarmos somente naquilo que temos, ao invés de dar importância às coisas que nos faltam.
Pergunta Blog: Alguns argumentam que a decadência de valores morais, que em geral aflige o mundo, está de certa forma ligada à ausência da religião na vida das pessoas. O argumento é que as pessoas sem um vínculo com a religião ou sem o medo do castigo divino ou de alguma forma de retribuição tornam-se menos inclinadas a fazer o que é certo. Qual é a sua opinião a respeito deste conceito?
Harold Kushner: Eu não acho que o temor a Deus tenha alguma coisa a ver com isso. Eu acho que uma pessoa tem mais medo da opinião pública. As pessoas sempre fizeram as coisas em segredo, o que significa que Deus vê o que eu estou fazendo, mas os vizinhos não, e por isso eu estou bem. Eu não acho que a religião seja o fator que leva à moralidade. Talvez no início da civilização a religião tenha ajudado a definir questões do certo e do errado. Eu acredito que o sentido do que é certo e errado está imbuído na natureza humana: intuitivamente, sabemos o que está certo ou errado. Por exemplo, quando crianças de três anos de idade veem um colega implicando com outro, elas têm noção de que isso está errado. Essa é a minha interpretação da história do jardim do Éden. Qual foi a fruta que Adão e Eva comeram? Foi a fruta da árvore do conhecimento sobre o que era certo e o que era errado, do bem e do mal. Nós temos um entendimento do que é certo e do que é errado, que nenhum outro ser possui. Um leão, por exemplo, pode sair e matar uma zebra e isso não é crime, é só o jantar. Mas para um ser humano matar outro ser vivo já é um ato imoral. Nós entendemos que tirar as coisas dos outros à força é errado. É por isso que a palavra “racionalização” existe em inglês porque o fazemos. Nós sabemos o que é errado e às vezes tentamos bancar que não está errado. Eu acho que o papel da religião não é para nos dizer o que é certo ou errado. Eu acho que intuitivamente já sabemos disso, e acredito que o papel da religião é o de construir um espírito coletivo, um espírito de comunidade entre as pessoas.
Pergunta Blog: Um dos maiores desafios enfrentados hoje em dia por diversos treinadores no esporte profissional é o de gerenciar os diferentes tipos de personalidades dos jogadores. Em uma sociedade obcecada com o culto de celebridades, que tende a endeusar o indivíduo, talvez não haja maior desafio para um treinador do que o de convencer um atleta com um ego enorme a pôr os seus interesses individuais de lado em prol dos da equipe. De fato, verificamos com frequência que os treinadores mais bem sucedidos são aqueles que são capazes de obter o melhor possível destes indivíduos complicados e problemáticos, com o intuito de promover uma mentalidade coletiva dentro da equipe. Se olharmos para as grandes dinastias esportivas, como o New England Patriots e o New York Giants no futebol americano, ou o Chicago Bulls e o Los Angeles Lakers no basquete, vemos que todas elas foram lideradas por homens de fé e altamente filosóficos, que foram capazes de impregnar esse espírito nessas equipes. Você poderia dar sua opinião sobre este tema?
Harold Kushner: Você está comentando sobre um dos assuntos o qual tenho maior interesse. Religião, ou teologia não significa crença individual. Religião significa comunidade. A religião é algo que conecta as pessoas. Eu acredito que a origem da palavra “religio” está relacionada com a palavra em latim “religare,” que significa “re-ligar,” “reconectar”. O objetivo da religião é colocar-nos em uma comunidade que apoia o compromisso com tais valores, que promove o espírito de comunidade e de equipe e que nos ajuda a pôr em prática esse espírito no dia a dia.
Pergunta Blog: Então, eu presumo que você é da opinião que os treinadores lendários que são influenciados pela religião e pela filosofia, tais como Vince Lombardi, John Woodsen e Phil Jackson, possuíam uma maior habilidade de unir e fazer as pessoas lutarem por objetivos comuns.
Harold Kushner: Ah, com certeza. Eu acho que a era dos grandes homens que só dizem “siga-me,” como os Napoleões e os Césares da vida, ficaram para trás. O que faz um líder ser eficiente e bem sucedido na área do esporte, negócios e política, é a habilidade de criar comunidades onde as pessoas estão dispostas a juntar suas forças com as dos outros em prol do grupo. O Phil Jackson que você mencionou falava sobre os cinco jogadores do Chicago Bulls como se fossem os dedos de uma mão. Quando eles estão todos em sintonia, eles formam um punho compacto. Eu acho que é isso que um verdadeiro líder deve propagar nos dias de hoje.
Pergunta Blog: A vida dá muitas voltas, e em várias ocasiões nos pega completamente de surpresa, e o imprevisível às vezes acontece. Como podemos filosoficamente e teologicamente nos preparar para tais acontecimentos inesperados que possam vir a acontecer? E como é que podemos viver em um mundo sem receios e sem medo?
Harold Kushner: Essa é uma pergunta muito boa. Com tudo o que vemos, você tem que estar apreensivo sobre o futuro. Em um programa de TV em que eu estava participando alguns anos atrás, no Canadá, alguém me disse: “Eu estou com medo, porque não consigo enxergar o futuro”. E eu disse-lhe que não deveria saber sobre o futuro. É como assistir a um filme do qual você já sabe o final. A religião não oferece garantias a ninguém de que as coisas vão correr bem e também não promete que se você for uma boa pessoa, as coisas vão correr bem. O que a religião diz é o seguinte: “Sim, é claro que estamos apreensivos sobre o futuro neste mundo muito confuso e incerto”. A promessa da religião não é que as pessoas boas vão ter um final feliz. A promessa da religião é que, aconteça o que acontecer, você terá os recursos para lidar com qualquer situação. Essa é a mensagem que eu passo regularmente à minha congregação. É essa a mensagem que eu gostaria de estender aos seus leitores. Não sabemos se coisas boas irão nos acontecer no próximo ano, mas temos plena confiança de que, para o que mais tememos, Deus nos proporcionará os poderes e a força que nunca imaginaríamos ter para ser capazes de lidar com nossas adversidades, por maiores que elas sejam.
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