Por que os curdos não têm Estado?


POR DIOGO BERCITO

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Cartaz na Universidad Autónoma de Madrid em solidariedade à "resistência curda". Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Cartaz na Universidad Autónoma de Madrid em solidariedade à “resistência curda”. Crédito Diogo Bercito/Folhapress
Cheguei à aula na universidade, durante esta semana, e encontrei um curioso cartaz em defesa da “resistência curda”. Escrevi também, noOrientalíssimo blog (clique aqui para ler), sobre motoqueiros holandeses que lutam ao lado dos curdos contra o Estado Islâmico. A batalha no norte de Iraque e Síria é aquela do Exército curdo da Peshmerga. De maneira que tem parecido urgente, para o leitor, lembrar-se de duas perguntas fundamentais: quem são esses tais de curdos e por que eles não têm um Estado próprio?
Pode começar: quem são os curdos?
Os curdos são um grupo étnico de 30 milhões de pessoas, aproximadamente, espalhados em uma região que inclui Turquia, Síria, Iraque e Irã. Como comparação, há 8 milhões de pessoas em Israel. De acordo com um texto da BBC em espanhol (clique aqui para ler), os curdos são a minoria étnica sem Estado mais importante do Oriente Médio.


 
O que eles têm de especificamente curdo?
A começar, uma língua curda (de família indo-europeia, como o latim, em um ramo próximo do persa; o árabe, por outro lado, é uma língua semítica). Além disso, uma história curda e uma forte noção de identidade –curda. Se isso significa que tenham de ter um Estado próprio não é uma questão para este Mundialíssimo blog (clique aqui se estiver curioso a respeito das teorias de “comunidades imaginadas”).
Mas por que eles não têm um Estado? Nunca tentaram?
Putz. Bastante. A luta entre curdos e o Estado turco deixou mais de 40 mil mortos, entre 1984 e o cessar-fogo de 2013. O PKK, partido marxista curdo na Turquia, é considerado terrorista e não é bem visto nem por lá, nem no Ocidente, o que não ajudou nos esforços em busca de maior autonomia. Esse é, de certa maneira, o resumo da frustração do projeto de um Estado próprio: o bloqueio das potências regionais e o desinteresse do Ocidente. Vejam abaixo uma breve cronologia do confronto na Turquia.



Mesmo assim os curdos não têm nenhum tipo de administração?
Eles têm um grande grau de autonomia no norte do Iraque, onde estão sendo fundamentais contra os avanços do Estado Islâmico. Os curdos sunitas são maioria naquela região, em oposição a uma hegemonia xiita árabe no sul, como vocês podem ver pelo mapa abaixo.

Qual é a distribuição populacional, em termos de números?
Especificamente no Iraque, maioria xiita, seguida por sunitas árabes, sunitas curdos, “outros” e xiitas curdos. Mas essa divisão mistura uma noção étnica com as crenças religiosas. Talvez seja mais simples dizer, para efeitos dessa questão, que é uma maioria árabe e uma minoria curda.

Sunitas curdos, sunitas árabes, xiitas árabes. Que mistureba! Mas acho que já entendi: o Iraque é um país diversificado.
Esse não é nem o começo da história. O Iraque, assim como os demais países da região, abriga um grande número de minorias históricas, como os assírios e os sabeus. Antes que vocês me perguntem, essa informação tem, sim, importância política, porque a proteção ou a perseguição a esses grupos marcam a história iraquiana –e a ascensão do Estado Islâmico, também, que tem recentemente escravizado mulheres yazidi.

É aí que entra o Exército curdo que você mencionou ali em cima?
Sim. Parte dos avanços do Estado Islâmico têm ocorrido na fronteira entre o território do dito califado islâmico e a região autônoma do Curdistão iraquiano. Assim, as batalhas em torno de Mossul e Kirkuk, por exemplo, tiveram grande influência do Peshmerga, o Exército curdo.