"Abolicionistas ignoraram a existência da escravidão na África"


O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Manolo Florentino é reconhecido como um dos grandes estudiosos da história da África e da escravidão no Brasil. Seu livro Em costas negras: uma história do tráfico entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX) – publicado em 1993 e agraciado com o Prêmio Arquivo Nacional – acaba de ser relançado pela Editora Unesp. Apontada como referência no tema, a obra abriu caminho para novas abordagens sobre o comércio de escravos. Nesta entrevista, o autor fala sobre as peculiaridades do tráfico negreiro, dos elevados ganhos financeiros e como a atividade se manteve nas mãos de um seleto grupo de comerciantes. Florentino destaca ainda a importância de estudos sobre a África colonial e destaca a atual produção acadêmica sobre a escravidão.

O seu livro analisa o tráfico de escravos entre o fim do século XVIII e 1830. Por que o senhor escolheu especificamente esse período?

Esse período marca a conjuntura final da colonização e os primeiros anos do Brasil como nação independente. O fim do período colonial é a época em que ocorre a maior entrada de escravos no Brasil. E isso se dá apesar de todas as pressões exercidas desde 1810 pela Inglaterra e que vão levar à proibição do tráfico de escravos em 1830. Há uma série de fatores que explicam o porquê do aumento expressivo do tráfico de almas.


Cite alguns desses fatores.

Com a Revolução Haitiana, que começa em 1791, abre-se um novo mercado para o açúcar brasileiro. E essa lavoura necessita de braços. Além da cana, o Brasil eleva a produção de algodão e inicia o cultivo do café. Há um aumento estupendo do tráfico. Só o Rio de Janeiro recebe 800 mil escravos nesse período. Podemos acrescentar ainda o crescimento do mercado interno nas regiões Sudeste, Nordeste e Centro-Oeste do país, o que demanda a ampliação do uso da mão de obra escrava.

O Brasil exporta açúcar e importa escravos.

Se o açúcar é o principal produto da pauta de exportações brasileiras, o escravo é o item que lidera a pauta de importações. Nenhum produto importado sequer se aproxima do volume de recursos destinados à compra de escravos na África.

E o Rio de Janeiro se consolida como principal porta de entrada de escravos.

O Rio de Janeiro concentra dois terços das entradas de escravos. Não é por acaso que os grandes comerciantes de escravos estão na cidade. O escravo chega ao Brasil pelo porto do Rio e é enviado para as demais áreas do país. Mas esse é um negócio que guarda características bem peculiares.

Como assim?

O tráfico de escravos é dominado pelo capital local, não pelo capital da metrópole. Essa é uma atividade mercantil controlada pelo capital colonial residente. Os negociantes acumulam recursos aqui e investem no tráfico. São eles que contratam os navios negreiros, abastecem a embarcação, compram mercadorias para o escambo, pagam o seguro da viagem e cuidam de toda a estrutura necessária para a empreitada. Há capitais estrangeiros investidos no tráfico? Há, é claro, porém é o capital colonial que controla e domina o negócio, que tem dimensões surpreendentes.

Dê um exemplo da dimensão do tráfico?

Do século XVI ao século XIX, entram no Brasil entre 4,7 milhões e 4,8 milhões de escravos. Mas, se analisarmos apenas os séculos XVIII e XIX, veremos que o período concentra a chegada de 4 milhões negros. Percebe como o negócio do tráfico ganha vulto nesse período final?

Qual o perfil do comerciante de escravos?

Ele integra a elite da época, junto com os plantadores de cana. Geralmente segue uma trajetória empresarial bem marcada. Começa no comércio de importação e exportação. Ele tem a sua atenção chamada para a altíssima lucratividade do tráfico e decide investir no novo ramo. Para se ter ideia, até 1830 cada viagem dava retorno financeiro de 19%. Após a proibição do tráfico, o lucro chega a 25%, pois há maiores riscos. Em sua imensa maioria, são homens do comércio. Apenas 5% dos traficantes de escravos começam a vida como capitães de navio.

O comerciante de escravos desse período se mantém no negócio mesmo após a proibição do tráfico?

Alguns permanecem, mas a maioria acumula grandes fortunas com o tráfico e vira fazendeiro. Ainda que seja um excelente negócio, está longe da lucratividade da venda de negros. Na época, uma fazenda rendia lucro de 5% a 10% ao ano – algo bem distante dos 19% de retorno financeiro de cada viagem.

A diminuição do lucro implica perda de projeção social para o traficante de escravos?

Pelo contrário. Ele perde dinheiro, mas ganha status, pois passa a ser proprietário de terras e homens (os seus escravos). Essa é a lógica colonial. A trajetória desse personagem pode ser resumida em três fases: comerciante, traficante e fazendeiro.

O traficante conquista influência política na mesma proporção de seu poder econômico?

Os traficantes de escravos formam um grupo pequeno, extremamente coeso, rico e capaz de se colocar contra os interesses do maior império da época. Tanto que a Coroa portuguesa e, depois, o Estado brasileiro resistem às pressões britânicas pelo fim do tráfico durante 40 anos, entre 1810 e 1850. Os interesses econômicos e as relações políticas estabelecidas pelos comerciantes de escravos dão a esse grupo posição de destaque.

Na época, qual é o valor do investimento em uma viagem para trazer escravos da África?

Os custos são altíssimos. Em 1810, gasta-se para equipar o navio e comprar mercadorias para escambo o equivalente ao preço de uma fazenda de cana-de-açúcar, com engenho e 50 escravos. Esse é o custo por viagem. Ou seja, o tráfico é uma atividade empresarial que requer elevado estoque de capital, fruto de longa acumulação.

Como ocorre a divisão desse mercado?

Entre 10% e 15% dos traficantes controlam 70% das entradas de negros no Brasil. Esses números mostram como há um núcleo restrito e fechado. É um mercado para profissionais. Claro que há espaço para especuladores e aventureiros, mas poucos têm liquidez para ingressar no negócio. Além disso, o tráfico de escravos é uma atividade econômica complexa e que envolve diversos elementos. Definitivamente, é um negócio para poucos.

Como atividade empresarial, o tráfico de escravos deve ter riscos. Qual é a maior ameaça à lucratividade do negócio?

Enquanto negócio, o tráfico de escravos tem regras próprias. E são justamente essas regras que asseguram sua elevada lucratividade. A taxa de mortalidade a bordo é, com certeza, o elemento mais importante. Ao contrário do que se costuma imaginar, havia todo um cuidado com os escravos embarcados. Eles são a mercadoria. Nenhuma empresa consegue se manter financeiramente equilibrada com seu produto se perdendo no transporte. O cálculo de capacidade dos navios é feito para garantir que haja o menor número de perdas entre os negros embarcados. Há casos de traficantes que faliram por conta de erros de cálculo e de altas taxas de mortalidade nas viagens.

O sucesso depende diretamente das condições oferecidas aos negros na viagem?

Correto. Estamos falando de uma travessia atlântica. O traficante quer manter o número de escravos desembarcados o mais próximo possível do número de escravos embarcados. Daí a preocupação com as condições de viagem.

Mas o que ficou para a sociedade foi a imagem de negros amontoados nos navios, submetidos a condições desumanas.

Imagem construída pelo romantismo no século XIX. Não estou afirmando que os negros trazidos da África fizessem a viagem com mordomias. Não é isso. Mas é importante atentar para uma comparação simples. A taxa de mortalidade dos navios negreiros vindos da África chega a 10%. No mesmo período, os navios que fazem a ligação entre Portugal e Brasil apresentam taxas de mortalidade de 20% a 30%.

Voltando à figura do traficante de escravos, ele se dedica apenas a trazer o escravo da África ou participa também do comércio de negros no Brasil?

Muitos atuam na redistribuição dos escravos. Com isso, potencializam os ganhos financeiros, controlando desde a aquisição do escravo na África até a comercialização no interior do Brasil. Os negros seguem por terra para Minas Gerais. Já para Espírito Santo, Bahia, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e para a cidade paulista de Santos seguem em navios de cabotagem.

A proibição do tráfico de escravos, em 1830, altera o perfil do negociante?

De certa forma, sim. O negócio passa a ser clandestino e a atividade é estigmatizada no plano cultural. Os recursos acumulados por décadas são redirecionados para outras áreas. Como disse antes, o traficante quer ser visto como senhor de terras e escravos, não mais como um vendedor de mão de obra escrava. A partir de 1830, abre-se espaço para o pequeno especulador, o aventureiro.

O seu livro aborda a escravidão na África e como os traficantes de escravos souberam aproveitar essa característica presente em diversas sociedades africanas.

É impossível estudar a África e não estudar o peso da escravidão dentro da África. Para ficar apenas em um exemplo, entre os séculos VII e XX, 10 milhões de escravos foram transportados pelo Saara. O tráfico atlântico se encaixa em um sistema que já existia. Vamos encontrar no século XVI a figura do captor branco de escravos, mas ela desaparece logo em seguida. Isso porque, no século XVII, as elites africanas assumem o papel de captores de cativos, que logo se transformam em escravos.

Como se dá o controle do tráfico dentro da África?

O controle é pulverizado. Os impérios africanos geram com as guerras grandes volumes de escravos, mas a comercialização é pulverizada. Não é como no Rio de Janeiro, onde o negócio está concentrado nas mãos de poucos.

Por que se fala tão pouco da escravidão na África?

Esse é um efeito do abolicionismo, o maior movimento de opinião pública até então. Ele foi fundamental para o fim da escravidão, mas cometeu alguns equívocos. Os abolicionistas disseminaram a representação da África como o continente eternamente vítima da cobiça de estrangeiros. É a visão que permanece até hoje, a da “grande mãe África, misteriosa, exótica e bela”. Os abolicionistas simplesmente ignoraram a existência da escravidão na África. O que fica é a impressão de que a escravidão é uma prática exclusiva dos europeus.

Seu livro foi lançado em 1993, quando conquistou o Prêmio Arquivo Nacional. Desde então, o que mudou em termos de pesquisa no Brasil sobre a África?

Houve a lei que tornou obrigatório o ensino de história da África. Estamos na fase de formação de quadros acadêmicos. Noto que há pouca pesquisa sobre África colonial. Talvez seja pela necessidade de viajar até lá para fazer pesquisa, o que inviabiliza muitos projetos. Gostaria de ver estudos sobre os grandes impérios africanos. Até porque sem África não há Brasil. Em compensação, vejo com bons olhos o crescimento da produção acadêmica por conta da expansão das pós-graduações. Nos últimos anos, surgiram estudos interessantes sobre a escravidão no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Amazonas.

MARLUCIO LUNA é jornalista