Retrato Falado: Os leões assassinos de Tsavo


Leões Tsavo
ILUSTRAMurilo Araujo
1. Em março de 1898, dois leões machos começaram a sondar os trabalhadores de uma ponte que estava sendo construída sobre o Rio Tsavo, no Quênia, pelo Império Britânico. Quem primeiro os flagrou foi o tenente-coronel irlandês John Henry Patterson, que tinha acabado de chegar à região para supervisionar a obra

2. Patterson descreveu os bichos no livro Os Devoradores de Homens deTsavo, de 1907. Eram imensos: mediam 3 m de comprimento, do focinho à ponta da cauda. E não tinham juba. (Segundo cientistas afirmaram depois, a calvície podia ser indício de excesso de testosterona, o que também explicaria a alta agressividade)

3. Na primeira semana, eles emboscaram alguns trabalhadores que foram à mata buscar lenha. Cerca de um mês depois, já estavam confiantes para invadir as tendas e cabanas dos operários na calada da noite. Abocanhavam as vítimas e as arrastavam para a savana. No meio do ano já não temiam ninguém e devoravam os homens, ainda vivos, no próprio acampamento

4. O auge do terror se instalou quando um dos animais rastejou por baixo de uma tenda hospitalar e massacrou dezenas que dormiam. Para evitar um novo ataque, Patterson realocou a enfermaria no centro do acampamento e a cercou com espinhos, fogueiras e postos de atiradores. Não adiantou: na madrugada seguinte, os leões trucidaram um enfermeiro

5. Segundo registros da época, em nove meses os leões teriam assassinado cerca de 140 pessoas. E nem era para comer: só 35 foram devoradas. No início de dezembro, os sobreviventes, traumatizados, paralisaram a obra com uma greve. Muitos foram embora. Com sua reputação e vida em jogo, Patterson decidiu que era hora de a "caça" virar "caçador"

6. Um pequeno grupo liderado por Patterson partiu à procura das feras. Mas os bichos pareciam ter uma esperteza sobrenatural, driblando cada avanço e realizando ofensivas estratégicas. Nativos passaram a acreditar que eram espíritos de dois chefes curandeiros que voltaram para se vingar. Eram chamados de "shaitaini", ou Sombra e Escuridão
7. Sem os trabalhadores por perto, os felinos tomaram o local da obra. Para atraí-los para fora do acampamento, Patterson espalhou o sangue de três cabras mortas ao pé de uma plataforma camuflada com folhas, onde se escondeu. Do alto e em vigília, o caçador localizou um dos alvos e disparou seis vezes. Um tiro pegou no coração: game over para um dos leões

8. O outro havia escapado, mas estava cauteloso. Repetindo a estratégia, Patterson ficou de guarda no alto da arapuca. Na manhã de 29 de dezembro, a fera voltou. Sem o apoio tático do parceiro, acabou levando uma bala e fugiu pelo matagal. Acuado, tentou um último bote, mas um tiro no peito e outro na cabeça o mataram

9. Ao longo do século 20, várias teorias tentaram explicar essa história. Para peritos da Universidade Roosevelt, de Chicago, Sombra e Escuridão podem ter optado por caçar gente após a peste bovina exterminar suas presas tradicionais. Cadáveres abandonados pelo tráfico negreiro podem ter introduzido-os ao sabor da carne humana

QUE FIM LEVOU?
Patterson vendeu a pele e o crânio dos leões ao Museu Field, de Chicago, por US$ 5 mil. Desde 1924, os restos originais integram uma exposição permanente

FONTES Sites VEJA, NATIONAL GEOGRAPHIC, Chicago Tribune, O Globo e Smithsonian, e artigo "Os Leões Comedores de Homens de Tsavo", do Museu Field de História Natural