Rondon, o positivista dos sertões

Nas primeiras décadas do século passado, o Marechal Cândido Rondon foi a voz mais atuante em defesa do índio, a quem queria conduzir ao próximo estágio da evolução

O marechal em traje de gala: pioneiro na proteção aos índios
por Flávia Ribeiro


“Rondon ouviu um sopro que parecia um adejar de pássaro, baixou os olhos e viu uma flecha espetada na bandoleira de couro de sua Remington. Fez vários disparos para o alto e dispersou os atacantes. Ganidos singulares ecoavam pela mata: Rio Negro, o cão de caça de Rondon, fora atingido por uma flecha.” É assim que o historiador americano Todd A. Diacon (Rondon, coleção Perfis Brasileiros, Companhia das Letras, 2004) descreve o primeiro ataque de índios sofrido pela Comissão Rondon depois que o então presidente Afonso Pena nomeou Cândido Rondon, um major de 42 anos, como chefe da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) – ele seria alçado a marechal em 1955.

O objetivo da comissão era expandir o poder e a presença do Estado por regiões ainda inexploradas, as típicas “terras de ninguém”. O telégrafo conectaria cada recanto da nação. Era uma missão hercúlea, designada a Rondon. Durou de 1907 a 1915. A investida da tribo nambiquara aconteceu em 22 de outubro de 1907, cerca de seis semanas após o início da marcha pela floresta liderada pelo oficial.


Os nambiquaras não tinham boas experiências com o homem branco. Seu contato maior era com seringueiros, com os quais viviam em guerra. “Longe estávamos de esperar essa traição que quase me trouxe a morte”, anotou Rondon em seu diário, naquela mesma noite, já planejando um contra-ataque. No dia seguinte, de cabeça fria, o tom era outro: ele escreveu que, depois de ter refletido, acabou “reconduzido ao ponto de vista humano e fraternal – insisti pela retirada, porque a nossa missão é fraternal e de paz e não de guerra”.

Experiências semelhantes levaram Rondon a criar em 1910, com o governo federal, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Para além de conectar o Brasil, mapear a região e estende o poder do Estado, Rondon se imbuiu na missão de proteger os nativos. Os primeiros contatos pacíficos com os nambiquaras aconteceram nessa época. Bem antes, em 1901, quando era chefe da Comissão Construtora de Linhas Telegráficas no Estado de Mato Grosso, já estabelecera diálogo com os bororós. Depois, entre 1910 e 1946, seguiram os contatos com os botocudos,kaingangues, xoklengues, umotinas, parintintins, urubus e xavantes, entre muitos outros.

Aos 87 anos, em 1952, Rondon apresentou o projeto de criação do Parque Nacional do Xingu, inaugurado em 1961, três anos após a sua morte. Em 1953, ainda participou ativamente da criação, ao lado do antropólogo Darcy Ribeiro, do Museu Nacional do Índio. Seu trabalho em prol da defesa de direitos indígenas lhe rendeu a indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 1957. Ainda assim, estudiosos recentes têm uma visão diferente de Rondon, como conta Todd Diacon.
O ex-presidente americano Theodore Roosevelt e o marechal Rondon, na célebre expedição ao rio das Dúvidas
O antropólogo Antonio Carlos de Souza Lima, em Um grande cerco de paz: poder tutelar, indianidade e formação do Estado no Brasil (Vozes, 1995), é um deles. Ou a historiadora Laura Maciel, para quem “desbravar, amansar, domar os sertões e tudo o que neles havia, inclusive os índios, à semelhança do que se faz com os animais domesticados, eram decisões políticas de ocupação e conquista do espaço interior embasadas em desejos de ordem e progresso traduzidos, por sua vez, em atos de força, de vontade de subjugar e dominar e que hoje podem ser sintetizados em uma única palavra: sertanismo” (em A nação por um fio: caminhos, práticas e imagens da Comissão Rondon, tese de doutorado, PUC-SP, 1997).

Na opinião o antropólogo George Zarur, ex-diretor da Funai (Fundação Nacional do Índio), para analisar os feitos de Rondon é preciso avaliá-lo em seu contexto histórico. O ponto de vista de Rondon não condiz com os valores atuais. Seu objetivo era proteger os índios, mas também assimilá-los, conduzi-los ao próximo estágio de evolução, que seria a civilização – especialmente a civilização segundo a visão do positivismo, “religião” de Rondon.

“Ainda assim, na época, o que ele fez foi uma revolução na forma de pensar e agir em relação aos indígenas. O que havia antes eram propostas para exterminar os índios. Ou a alternativa religiosa, que buscava salvar não as vidas dos índios, e sim suas almas. Os salesianos, por exemplo, separavam os pais dos filhos, para que os jovens não aprendessem a religião da tribo e fossem mais facilmente catequizados. É claro que a Igreja mudou muito, sua visão hoje é oposta a essa. Mas naquela época era assim. E Rondon foi um grande defensor do direito do índio à vida e às suas terras. Isso já foi um grande passo”, explica Zarur.

Um exemplo é uma declaração do marechal em 1910, em carta ao ministro da Agricultura: “Que lhes seja respeitada a posse da terra onde vivem, em todos os tempos violentamente invadidas pela civilização”. Rondon seguia algumas leis, que demonstram tanto sua busca da defesa dos índios quanto sua tentativa de “civilizá-los”. Em conferência realizada em 1940, ele as enumera: 1. Não afastar o índio do seu habitat, pois conhecemos o efeito desastroso desse afastamento. 2. Não forçá-lo a trabalhos e respeitar sua organização tribal. 3. Criar-lhe, pelo exemplo, e pelo fornecimento de coisas úteis, novas necessidades. 4. Induzi-los, por meios suasórios, aos trabalhos do seu agrado e que lhes forneçam recursos para a compra dos artigos correspondentes às suas novas necessidades. 5. Revelar-lhe, pelo ensino livre e adequado, novos horizontes de vida, selecionando os mais capazes para guias do seu povo. 6. Ter em vista, quanto aos trabalhos, o regime gregário de atividade indígena, não só na execução, mas, sobretudo, na distribuição dos produtos, o que impedirá toda tentativa de loteamento.

Antes de tudo, o militar fazia com que seus comandados seguissem uma máxima: “Morrer se preciso for; matar, nunca”. Para garantir que seu ideal fosse respeitado, chegava a guardar as armas dos soldados que estavam sob seu comando. Homens de confiança que levavam à frente sua política também apostavam nessa ideia. “Um exemplo foi Pimentel Barbosa, um de seus seguidores, que trancou as armas de seus subordinados para que eles não reagissem a um ataque xavante”, conta o professor Zarur. Inspetor coronel do Exército, Pimentel foi morto pelos xavantes em 1941, assim como os cinco homens que o acompanhavam.

Rondon (à esquerda) e Roosevelt (à direita), entre outros componentes da expedição Roosevelt-Rondon, em 1914: ex-presidente esteve à beira da morte numa região além do alcance dos mapas da época
A função primeira de Rondon era garantir a presença do Estado em regiões ainda pouquíssimo co-nhecidas, desbravando a Floresta Amazônica e implantando linhas de telégrafo. Entre 1907 e 1915, ele instalou cerca de 1.600 km de linhas telegráficas ligando Cuiabá, no Mato Grosso, a Santo Antônio, Rondônia. Contudo, bisneto de índios (bororó e terena, por parte da mãe, e guará, por parte de pai), Rondon esteve sempre em busca de contato com as tribos dos locais por onde passava. Também buscava mapear cada recanto, analisando sua flora e fauna. Foi um dos grandes exploradores do início do século passado. E ficou mundialmente famoso por conta de sua missão conjunta como ex-presidente americano Theodore Roosevelt.

Em seu caminho pelas florestas inexploradas, tribos hostis foram o menor dos percalços. Doenças como malária sugaram as forças das tropas que o acompanharam e mataram muitos de seus homens. O próprio Rondon esteve à beira da morte. A caminhada pela floresta era dura. A fome rondava, já que não havia, inicialmente, postos de reabastecimento. Muitas vezes, os soldados precisavam caçar o alimento do dia. O resultado era uma enorme quantidade de deserções entre os praças designados para trabalhar com o marechal. “A nossa resistência física se dobrava sob o peso da fome e das privações de toda sorte que nos atormentaram durante a travessia”, declarou Rondon sobre a segunda expedição ao rio Madeira.

Ainda assim, o militar e seus comandados foram abrindo caminho por entre as árvores e rios, levantando postes e construindo postos de telégrafo em meio à selva. No entanto, como conta Todd Diacon, os números mostram que a obra não significou uma revolução em termos de comunicação para a região. Uma das estações, por exemplo, a Presidente Hermes, só mandou 38 telegramas em 1924, e só recebeu 15 ao longo daquele ano.

“Quando o último prego da linha telegráfica ligando Cuiabá a Rondônia foi pregado, a tecnologia das transmissões por rádio se estabeleceu e criou-se o telégrafo sem fio. O importante não foi a linha em si, e sim a exploração de uma região inexplorada e o contato cordial com os indígenas. Rondon era um excelente geógrafo e naturalista, trouxe as primeiras informações sobre muitos lugares do Brasil. Trouxe conhecimento de território, de plantas, animais, além da descrição de tribos e seus costumes. Além disso, foi ele quem convenceu a população brasileira de que valia a pena defender os índios. Nesse sentido, pode-se dizer que o legado que Rondon deixou foi de humanismo”, avalia Zarur.

No entanto, havia uma contradição entre a política de proteção aos índios e a política desenvolvimentista. A Comissão Rondon acabou abrindo caminho para o estabelecimento de seringueiros ao longo da linha de telégrafo, o que foi comemorado como uma demonstração de ocupação das terras do interior do Brasil. Com isso, aumentou-se, e muito, o número de ataques a índios por seringueiros e por companhias em busca de territórios para exploração da borracha.

“A política de integração também foi muito problemática. Primeiro, pelas epidemias de gripe e sarampo, vírus com os quais os índios nunca tinham tido contato e, portanto, não haviam desenvolvido nenhuma resistência. Os homens da Comissão Rondon inadvertidamente levaram esse vírus para as tribos, e eles dizimaram populações inteiras. Segundo, era simplista demais. Preocupava-se em garantir pequenas extensões de terra às comunidades. Mas tribos caçadoras precisavam de terras amplas e não se tornariam agricultores de um dia para o outro. Por fim, havia o aspecto da ‘religião’ de Rondon, o positivismo: colocava-se os índios para adorar a bandeira brasileira”, analisa Zarur.

Já nos anos 1940, os irmãos Lonardo, Orlando e Cláudio Villas-Bôas, que em 1948 chefiaram a Expedição Roncador-Xingu, foram seguidores de Rondon e mantiveram com ele extensa troca de correspondência. Mas levaram suas ideias a um patamar mais próximo ao atual, buscando a proteção não só de suas vidas, mas de sua cultura. “Ainda assim, quem inventou o apoio do Estado à sobrevivência indígena foi Rondon. Ele foi, sim, um herói cultural. E, no fim da vida, admitiu em carta aos irmãos Villas-Bôas que eles estavam certos, que a melhor política era interagir, mas mantendo a identidade e a cultura de cada povo”, conta Zarur.

Flávia Ribeiro é jornalista