Socialista Felipe González é eleito primeiro-ministro da Espanha em 82

Esquerdista de 40 anos, mais jovem premier da Europa obteve vitória esmagadora nas urnas. Ele iniciou transição lenta, temendo que tentativa de golpe de 1981 se repetisse

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) obteve vitória esmagadora nas eleições gerais de 28 de outubro de 1982 e levou ao poder o mais jovem primeiro-ministro europeu, o advogado trabalhista Felipe González Márquez, de 40 anos. Os socialistas conquistaram 201 das 350 cadeiras das Cortes (o parlamento espanhol), contra 120 na legislatura anterior. A direitista Alianza Popular, herdeira do franquismo, decuplicou sua representação, elegendo 106 deputados, e os demais partidos sofreram fragorosa derrota.


A eleição do jovem socialista para primeiro-ministro foi de início celebrada como uma revanche da esquerda, 43 anos depois da Guerra Civil. Mas o tom moderado de González prevaleceu e ditou um ritmo lento para a transição, marcada pelo temor de uma nova tentativa de golpe da linha dura militar.

Essa tentativa ocorrera em 23 de fevereiro de 1981, quando uma companhia da Guarda Civil, comandada pelo tenente-coronel Antonio Tejero Molina, ultradireitista, ocupou o parlamento espanhol durante 18 horas, detendo 350 deputados. Tejero Molina exigia a dissolução do parlamento e "a imediata formação de uma junta militar de governo", conforme edição do GLOBO no dia seguinte. Foi expulso da corporação e condenado a 30 anos de prisão, tendo obtido liberdade condicional em setembro de 1996.
O triunfo na Espanha seguia-se a êxitos socialistas na França, na Grécia e na Suécia. Mas, diferentemente do francês François Mitterrand, que iniciou o governo tomando medidas de impacto social, González optou pela cautela, com um programa conservador: contenção salarial e aumento dos lucros para vencer a recessão e corte de gastos para combater a inflação.

O desemprego aumentou e veio uma onda de greves. Na eleição seguinte, em 1986, o PSOE viu sua representação cair para 184 deputados, mas manteve maioria absoluta. González seria reeleito ainda em 1990 e 1993, quando os socialistas tiveram sua bancada reduzida a 159 deputados.

Em dezembro de 1995, em meio a uma série de escândalos financeiros e políticos e à perda da maioria parlamentar, anunciou a antecipação da eleição geral para março de 1996. Seria derrotado por José María Aznar, do direitista Partido Popular, que presidiu o governo da Espanha até 2004. Depois de 13 anos à frente do governo, González visitou em 1996 o Brasil, onde foi recebido com a aura de um dos inspiradores políticos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Antes, nos anos 80, ele havia visitado o país e mantido encontros com líderes de esquerda, entre eles o ex-governador do Rio Leonel Brizola.
Ameaça à democracia. Tenente-coronel Antônio Tejero Molina ocupa o parlamento espanhol com seus homens
Ameaça à democracia. Tenente-coronel Antônio Tejero Molina ocupa o parlamento espanhol com seus homens 23/02/1981 / Arquivo